OUSE SER QUEM É. SEJA UMA SYBIL!

Por Nanda Frantz

Fotos: Acervo pessoal; divulgação

sybil e maxine

A constelação de artistas da Black Music lota um céu, mas são detalhes que as fazem brilhar com mais intensidade. No cenário do gênero genuíno carioca, a diva Sybil Ilona Lynch ou, como bem conhecemos, Sybil é alguém sui generis. A família tem outros artistas tal como a Maxine Jones, integrante do grupo vocal En Vogue, que é sua prima. Nesse converso afável, a trovadora se declarou sobre o Charme e os charmeiros.

Os brasileiros AMAM a Black Music de um jeito que, para mim, é como viver com um amor que vem do fundo da alma. A intensidade das músicas que todos vocês se entregam têm harmonias acentuadas, letras maravilhosas, inspiradoras e mensagens que ressoam em nós. A música negra para mim representa o princípio do que a música é verdadeiramente.”

Na década de 80/90, os dj’s atuavam como verdadeiros agentes influenciadores das playlists dos charmeiros… Afinal, eram eles que viajavam, traziam discos e compartilhavam as experiências nas pistas de dança, apresentando suas mixagens e artistas. Entre esses estava a diva, despontando em 1986, ritmada desde o House, o Pop até o R&B. É o mesmo que dizer que em todas as rotações, a sua competência vocal a encorajou à um caminho com diversas possibilidades de sucesso. E assim é!

Sybil (1).jpg

Quando o primeiro álbum, intitulado “Let yourself go” (1987), gravado pela Next Plateau Entertainment foi produzido, trouxe canções como “All though the night” com estilo House, “Falling in love” -, sendo classificada como funk/ soul-, e “Moonlight”  que já eram indícios de sua carreira mundial multifacetada.  Quando perguntei sobre essa confortável viagem entre os ritmos, ela disse:

“Não há diferença para mim. Sempre apreciarei um ritmo harmonioso ou estrutura lírica que se aconchegue em qualquer batida. Sou uma cantora. Então, interpreto os versos e a mensagem.”

Uma das razões que a faz permanecer nas pick up atuais é a sua assertiva posição quando o New Jack Swing estava se definindo, ao fim da década de 80. Aqui, na Cidade Maravilhosa, o Soul e o R&B passaram a ser catalogados através das incursões em bailes, já diferenciados das Disco’s, amparados pelos visionários como Mr Funk Santos, Corello e Fernandinho, por exemplo. A esta altura da história da música, o cruzamento dessas evoluções acolá e por aqui, que contava com os primeiros espaços no dial fm para se ouvir Charme com o Dj Corello, Dj Marcão, Dj Malboro, entre outros, confirmava o sucesso de artistas, internacionais ou não, que hoje são referência no gênero musical e afirmava-se, ainda mais, nos salões de bailes lotados pela zona norte.

Por essa e outras, desde 1989, os cariocas, atentos às referências, guardam estórias envolventes de quando ouviram “Don’t make me over” pela primeira vez. Afinal, no Brasil, EUA e na Europa a diva figurava no topo das hit parade’s com o álbum “Sybil. Esse fato ratifica o valor do profissional, efetivamente, Disc Jockey. O sabedor técnico de produção musical e a importância deles em sua carreira. E o que ela tem pra dizer sobre isso? Eis:

“Acredito que o cenário musical tenha mudado, no entanto, permitiu que muitos DJs experimentassem sucesso sem limitar-se, apenas, em tocar nos clubes, no rádio e na televisão. Devido à sua capacidade de ler as pistas de dança e a cena dos bailes, eles têm ideia do que funciona, do que pode funcionar e do que as pessoas querem ouvir. Então, há muitos caminhos para que seus álbuns sejam bem sucedidos. Só é preciso saber sobre quem estão mixando.”

sybMrs Lynch é compositora e, como perita musical, não teve dificuldades em comentar sobre os dj’s brasileiros e das lembranças do inesquecível show, no baile do Portelão, na áurea década de 90.

“Quando estive no Brasil conheci pessoas donas de emoções e de atitudes inspiradoras. Jamais possuí a menor ideia de que minha música transcenderia as diferenças de idioma. Lá descobri que, mesmo não falando a mesma língua, estamos conectados através da música. A energia do público, o apoio dos DJs e o amor com a minhas canções me cativaram e motivaram enquanto estive com vocês. Absorvi todo entusiasmo do “Brasil” participando de alguns shows clássicos. Foi incrível!” Vibrou.

As regravações de Don’t make me over”- de Dionne Warwick-,  “Walk on by” de Burt Bacharach, “I wanna be where you are” dos Jackson Five e o lançamento de “Living for the moment”, “Crazy for you” e “Love’s calling” embarcaram a cantora por ondas sonoras e shows pelo o mundo vendendo milhares de cópias. Sem desperdiçar tempo, ela se aliou a alguns produtores e, desta vez, partindo do seu felling natural em sugerir hits, atirou mais da metade do disco nas paradas internacionais e cravou “Make easy on me”, “Go on”, a canção gospel “Lovely day” e “Let it rain”, por exemplo, no álbum Sybilization, em 1990. Antes de caminhar rumo a outros projetos, que não a privava da música, ela ainda impulsionou performances e remixes dos sucessos nos álbuns Good’n Ready e Doin it now – ambos em 1993-, Sybil Greatest Hits e Still a thrill – ambos em 1997-, últimos gravados pela Next Plateau e com vendagem satisfatória na Europa, Estados Unidos, Brasil e Japão.

syb 1 (2)Se pararmos pra somar, nos deparamos com uma década de intensos investimentos e marcos apreciáveis na história do R&B e House.  E aí, tem mais! A improdutividade não é algo admissível para uma pessoa vibrante. Por isso, chegava a hora de mudar e continuar vendo, por outro ângulo, a multifacetada expressão da cultura que detém… Então, ela entrou para as salas de aula e passou a lecionar.

“Os alunos se sentem inspirados porque sabem que eu ainda faço música e viajo pelo mundo cantando o que eles ouvem no rádio, visualizo essa interação em vídeos e experiências por várias plataformas. A juventude e seus sentimentos a flor da pele fascinam, especialmente daqueles que desejam se espelhar em meu modo de viver e planejar uma carreira à longo prazo. O respeito que conquisto desses alunos, geralmente, vem do fato de que não escondo as verdades sobre a vida artística. Comento sobre o que é bom, o que é ruim e o que possa ser indiferente. Nossa troca é recíproca. É uma vitória mútua por que me incentivam a continuar ensinando o mesmo para os outros.”

Tive que perguntar: Por que você escolheu esse ritmo dinâmico de vida? Calmamente, ela me respondeu:

“Eu não escolhi, fui escolhida. Fui orientada por uma mentora para trabalhar num programa especial na faculdade que ela dirigia. Apresentei-me para atuar apoiando alunos que absorviam menos os conteúdos e, por isso, alguns desistiam deles. Por alguma razão, ela achava que eu detinha a incrível capacidade de me conectar. Ela estava certa. Esse projeto foi o catalisador para que voltasse à escola para avançar graus e implantar treinamentos. Atualmente, penso em cursar doutorado nos EUA. Sendo assim, meu ritmo de vida gira entorno de fazer a diferença pelos outros. E se é a música que nos conecta, então eu vivo bem assim.”

s - CópiaComo detentora das técnicas de produção textual e das formatações de estrutura lírica e poética a também professora, ensina sobre Composição e Escrita Criativa e coordena um programa de aptidões para perfis de liderança chamado Lead Achievement em universidades.

 “Já ultrapassei o ambiente sala de aula. Hoje trabalho com alunos que querem ser líderes, com o Achievement Coach, e coordeno esse programa ajudando aqueles que aspiram sucesso na vida e, nem sempre, pensando nos negócios artísticos. No entanto, pensando no que você perguntou, digo que incentivo a TODOS os meus alunos que, para que sejam um escritor mais eficiente, DEVEM ler. Essas práticas andam de mãos dadas pra quem quer compor músicas que são, na verdade, poemas musicados. A interpretação é de vital importância e ao que eu mais me dedico é que aprendam a sentirem-se à vontade com a própria voz.”

Geralmente, quem valoriza seu tempo, faz a sua hora acontecer transcendendo o que não parece ser real. E é impossível falar da Sybil, sem considerar sua fé e perseverança nas escolhas que fazia e faz, sempre contabilizando saldo positivo ao encerrar um ciclo.

“Todas as minhas decisões e o que faço é sustentado pela minha fé. Não há absolutamente nenhuma razão ou justificativa que eu possa dar para o viver, respirar ou existir sem acreditar que DEUS conduz meus passos. Eu aprendi a confiar no que não posso ver. Pode até parecer que algo não faça sentido, em alguns momentos, mas quando você sabe que Deus existe e que ELE te direcionar ao caminho, então cada passo tem um motivo e você está protegido.”

É reconfortante a serenidade com a qual Sybil responde as questões sobre vida e carreira… De lá, mesmo nesse ritmo frenético, ela sempre encontra tempo pra conviver com a nossa cultura musical e me surpreendeu quando fiz a simples pergunta: Que tipo de música ou artista brasileiro você aprecia?

“Não tenho um artista brasileiro específico, em particular, por quem eu sinta um carinho especial, por que AMO os ritmos e a música do país. Eu costumava ir a um lugar em Nova York chamado S.O.B.’s (Sounds of Brazil). Foi lá que me apaixonei pelo som e pela vibe brasileira.”

syb 1 (1)Eu sorri e senti orgulho da MPB ao ler isso… Acredito que vocês devam estar sentindo também… Essa forma de pensar na música como trabalho, sempre preservando uma postura real profissional, gabarita Mrs Lynch, de fato a orientar alguém tanto quanto temos alguns brasileiros como Alexandre Lucas. E analisando por esse prima, se fosse pra aconselhar, ela sugeriria:

 “Confie em você intrínseca e organicamente. Não tente se adequar ao que você “acha” que os outros querem. Faça o que é lhe parece autêntico e verdadeiro. É nesse enquadramento que experimentará os aspectos mais satisfatórios de sua criatividade e, finalmente, alguém enxergará isso.”

À pergunta que não quer calar, se ainda pretende lançar um álbum com músicas inéditas e/ou remixes de músicas gravadas, a cantora respondeu:

“Há conversações sobre algumas músicas inéditas minhas. Atualmente, estou em discussão com um dos meus ex-produtores, James Bratton (Don’t make me over, Walk on by, etc). Veremos o que acontece!” Com isso, entendi que é só aguardar!

Ao ponderar no que esta entrevista pode agregar para o momento artístico que vivemos no Charme, que a cada dia mais mergulha fundo em eventos com performances ao vivo e com espaços abertos aos nossos artistas, se revelando aos montes, imaginei que a primeira pergunta que fiz teve resposta equivalente a um toque de bom senso oportuno. Por isso a escolhi para os parágrafos derradeiros.

Sybil, que conselho recebeu no início de sua carreira que segue até hoje?

“O conselho que recebi e que ficou comigo até hoje está em ser autêntico. Não comprometa a sua integridade para agradar aqueles cujas intenções não são para o seu bem, mas para o benefício de outros.”

Cri ser justo imputar a palavra “diva” porque, da mesma forma que bem apreciamos o que é clássico na playlist do Charme, também sabemos como é complexo e alvoroçado o caminho artístico… O sucesso só acontece quando temos certeza de como a arte é indispensável à nossa existência e que a fama é uma minúcia perto de toda a glória de viver fazendo o que ama… Com 35 anos de carreira, ela se pronuncia como alguém que vive certa de que começa seus dias com algum motivo e os termina grata e plena do que pôde vivenciar.

sybilO que toca nos bailes e nos faz dançar é essa ideia que compramos dos versos que um compôs pra que alguém desse voz. Sendo assim, a conexão e a fama não se consumam pela quantidade de álbuns lançados ou vendidos, mas de como você permanece vigente em qualquer tempo, pra qualquer ouvido e nas melhores lembranças de quem conquistou… Pra se sentir completo, um artista deve guardar princípios e suplantar-se com firmeza, tem que perseverar e, ao apostar em si, ser como de verdade é ou ser como uma Sybil.

Um comentário sobre “OUSE SER QUEM É. SEJA UMA SYBIL!

  1. Jussara Ferreira disse:

    Muito emocionada em ler essa entrevista com ela.
    E saber que ela gosta da boa MPB.
    E mais emocionada ainda, por tê-la aqui conosco em abril desse ano, em um novo show para a galera charmeira, fãs e admiradores, após sua primeira apresentação a 30 anos atrás, e no próprio Portelão.
    Não perco por nada! Sou fã demais! 🎵👋👋👋

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